Este blog foi criado por um motivo simples: Eu gosto de escrever. Se você está aqui é porque gosta de ler, ou ao menos possui um interesse em ler o que eu escrevo. De qualquer forma, sê bem-vindo. O nome surgiu a partir da forma como os textos são guardados: Por serem escritos em locais diversos e por motivos aleatórios os mesmos são, após finalizados, dobrados e guardados em meu bolso. Sentem-se e divirtam-se.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
De 27 para 17
Como vai?
Tenho algumas boas e algumas más notícias. Espero que essa missiva chegue até você em bom tempo.
Não pare de tocar bateria. É uma coisa que você gosta e no futuro te fará falta. E você ficará frustrado (depois de uma certa idade fica feio usar o termo "emputecido") quando ver que cada vez mais sabe menos. Argumenta com a sua mãe sobre os vizinhos. Caso ela se mostre inflexível, aproveite que você tem mais tempo em casa do que ela: monta e desmonta essa joça.
Falando em música, deixa de lado essa mentalidade de avestruz. Rock é bom mas, vai por mim, está longe de ser a única coisa boa. E muitas vezes não é nem a melhor coisa. Ouve samba e jazz, se permita encantar pela música clássica. Vai descobrir outros mundos, você está às vésperas de fazer 17 anos e ainda tem muito caminho a percorrer.
Ainda na pauta de coisas a não se deixar de fazer: não larga a capoeira, poucas atividades lhe serão tão apaixonantes. O seu tempo vai apertar em ocasião futura, eu sei disso, mas não ceda o tempo da roda a outras atividades banais. Com o tempo você ficará mais pesado, mais lento, com menos flexibilidade, menos fôlego. Mais velho.
Esquece essa ideia de que mulher gosta de homem forte. Você ainda não faz a menor ideia do que mulher gosta e te dou um papo: você está fazendo tudo errado. Mais vale atividade física que dê prazer para sua mente (oi, capoeira) do que supostamente daria prazer aos olhos de qualquer rabo de saia.
Já faz um ano que você fuma de vez em quando, mantenha isso sob controle. Não faça disso um hábito e não deixe algo prazeroso se tornar um vício.
Por falar em coisas prazerosas, não, cara, você não é o único punheteiro do mundo. E você não vai parar de se masturbar. Nunca. Para de paranoia e aproveita o bom funcionamento do seu pênis (essa foi uma dica que eu recebi de uma carta do Eu-Futuro).
Você acha que já amou, mas não amou. O que você tem é um tesão encubado misturado a um orgulho ferido. Confia em você (digo, em mim... na gente) por mais absurdo que essa premissa possa parecer.
Por falar em 2014, quando tiver bolão do jogo Brasil x Alemanha, aposte 7 x 1 para a Alemanha. Não compre um carro com esse dinheiro.
Carro é uma prisão, não é a coisa mais legal do mundo. É um ralo de dinheiro e grana é uma coisa que você vai aprender a valorizar mais no futuro. Não ter uma CNH não é o fim do mundo e você vai descobrir, vai por mim, que sair de ônibus muitas vezes é o melhor que você faz.
Já que eu falei em grana, seja mais grato aos seus pais por partilharem o dinheiro deles para sustentarem você e te darem agrados. Você vai aprender o valor de cada minuto de ar-condicionado e cada km rodado num carro e cada lanche no McDonald's.
Falando nisso, você já está grandinho e pode começar a comer melhor. Abobrinha, agrião, espinafre, couve, couve-flor, brócolis, tudo isso é uma delícia. Lembra do papo em relação ao gosto musical? Mesma premissa. Não se aplica a tomate, continua sendo uma merda.
Aprende a cozinhar o quanto antes. Vai te ajudar a aliviar o peso pra sua mãe, é uma atividade prazerosa e vai ser muito útil para fazer sua esposa feliz. Fora que é uma forma bacana de receber os amigos.
Passeie com seus cachorros. Falo seus porque o Scooby não vai durar para sempre. Dá essa alegria diária pra ele e para os cachorros que vierem no seu futuro
O vô se foi, mas seus pais e sua avó ainda estão por aí. Escrevo de um futuro um pouco mais sombrio onde não há mais conselho ou colo de vó. Aproveite todas as chances do mundo para amadurecer e se fortalecer porque isso te fará falta no futuro.
Essa carta está ficando pesada, não? Vamos falar de carreira. Mas antes quero te falar de uma coisa importante: não se furte a oportunidade de prestar o serviço militar. Você irá amargurar muito essa decisão no futuro - é, literalmente, uma chance única. Lembre-se disso ano que vem.
Ainda sobre futuro e carreira e afins: estude. Estude muito. Cada minuto que você não estudar te fará falta no futuro. Seus pais não são ricos, você não tem vocação política e nem para o crime: somente o estudo te dará segurança no futuro.
Você vai passar por uma grande decepção em termos de carreira, vai ver um sonho escapar por entre os dedos (ou talvez não, se você seguir o conselho de estudar desde já). Entenda que não é fim do mundo. E não sendo o fim, significa que novos capítulos continuarão sendo adicionados à sua vida.
Sabia que você vai ter um diploma da UFRJ? Pois é.
Sabia que você ainda tem melhores amigos? Os mesmos de hoje e mais alguns que você coletou pelo caminho. Mantenha contato com eles sempre. Esse trecho foi copiado da carta do Eu-Futuro.
Não deixe de praticar a Umbanda. Não perca a fé nos seus guias quando tudo parecer perdido (leia-se na grande decepção em termos de carreira). Você tem muita gente para ajudar e muito o que aprender sobre ser uma pessoa melhor. Seus pais fazem a parte deles, mas a Umbanda e sua esposa complementarão isso majestosamente.
Eu queria poder te falar mais algumas coisas que o meu Eu-Futuro me disse, mas ele solicitou que não o fizesse para não te enviesar. Mas as notícias são boas, então segura as pontas e faz a tua parte.
Com amor,
Eu-Presente.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Público
As palavras mais verdadeiras não estarão no meu livro
Afirmo
As sinceras são ditas olhando nos olhos que amo
Chamo
Para os meus lençóis - tão nossos.
Já dizia um poeta mais sabido
Que em termos de dor o poeta é um fingido
Convencido
Pelo meu ardil com a língua que domino
A que guardo na boca, não a que vai sob seu vestido
Florido
Que usas nos dias de boreste e domingo.
O mundo não sabe o que se passa comigo
Meu coração não está em cartaz, não é exibido
Proibido
Falar o que se pensa num mundo tão concorrido
Bem sei: não sou o único a querer se deitar contigo
Sentido
Não faria dar munição ao inimigo.
No peito possuo um corredor estreito
Ao qual o acesso, te juro, é restrito
Bendito
O momento que disse: bem vindo
A todo o amor no seu ser imbuído
Digo
Que no teu formato ele foi construído.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Somos Mais Um
A sinto sozinho, como sozinho me vejo.
Entenda, meu bem, não sei se me sinto frustrado
Talvez seja a ansiedade que conduza esse meu realejo
O amor, antes repleto de candura,
pela sua vida peleja.
Por isso entenda, minha cara, se eu me fechar em clausura;
é para fazer com que o fio de futuro que nos une no tempo não se perca.
O fardo na tua voz ao ouvir a minha própria,
as pontas de dedo que não procuram mais minha pele, meu cabelo. Eu.
Talvez eu esteja enviesado pela boa memória
que você, ao chegar em minha vida, concedeu.
Fato é que o amor impera, mas pelo visto terras perdeu
Pois, ao que tudo indica, não mais se estende no espaço, agora infinito, que há entre você e eu.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Bloquear
Dar motivos pra saudades
Te fazer procurar meu abraço,
Deixar de estar lá sempre que pedes.
Vou segurar essa vontade crescente de estar sempre presente
Esteja você triste, esteja você contente
Deixar de surpreender com toscos presentes
Que só tem valor a quem não os recebe eventualmente.
Vou sumir do teu mapa,
Da tua cama, da tua Lapa
Dessa rede social tão chata
Virar poeira na tua caixa de entrada.
Vou desaparecer do telefone
E não preciso dizer que não tocarei o interfone
Corta do teu caderninho o meu sobrenome
Porque agora sou apenas mais um homem.
Só não vou fazer sumir do peito a esperança
De te ver assaltada por uma feliz lembrança
E numa dessas vastas andanças
Retomar os nossos planos de termos nossa criança.
Eu sumo mas, juro, apareço
Se ver que no teu peito ainda há apreço
Se ver que esse aparente desprezo...
Não passa de um pesadelo, de um devaneio.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Casa de Bonecxs
Sem vida nos olhos, empoeirando em tua estante mais alta - aquela pela qual você passa os olhos sem querer quando vai consultar as horas naquele velho relógio suíço na parede.
Quando aperta a solidão, você me pega e dá corda, mas só você ri com as tuas brincadeiras. Faz-se ventríloqua, colocando palavras em minha boca. Me veste como se esse GI Joe fosse o Ken.
E não basta o Ken.
É preciso as casas (de praia e campo) do Ken, o barco do Ken, o carro esportivo do Ken. Você ridiculariza o quimono vermelho e menospreza a faixa preta.
Quando decide ser adulta, me transforma no brinquedo que te faz gozar.
Moça, com o coração dos outros não se brinca. Essa pilha que você quer colocar não me cabe e só você não percebeu que há muito estou escangalhado.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Mulher Certa
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Houve Um Tempo
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Ballet Cósmico
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Conflito do Confronto
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Sobre Deus, o Pecado e o Homem.
Então por que condenais o homem que peca? Tal qual definimos que o som do tigre é um rugido, o do rebento é um choro, que o toque do vento é gélido, que o movimento do mar é agitado e que o ciclo do sol é uma diuturna morte-e-ressurreição, também não definimos que tal ou qual coisa é o pecado?
E vos pergunto, pois, quem nos deu autoridade sobre a Natureza para determinar a natureza das coisas, dos atos, dos pensamentos? Que força foi essa que delegou a um concílio o poder de definir quais as ações que, exercidas por qualquer homem, lhes valeria a alcunha de pecador? A inspiração divina, muitos diriam.
Pois o que determina o pecado? Será a negação da natureza humana o meio necessário para se alcançar o toque do Criador? Se crês que Deus definiu a natureza das coisas - ou delegou a homens o poder de fazê-lo de acordo com a Sua vontade - não seria Ele sádico por imputar ao homem a pré-disposição ao pecado só para vê-lo condenado por Ele e pelos seus pares que negam com afinco e demência o que é de sua natureza?
Não poderia Deus fazer o tigre mudo, o rebento silencioso, o vento quente, o mar sereno e fixar o Sol no céu? Não poderia Deus fazer com que o homem fosse isento do pecado? Se não poderia fazê-lo, o que dá a esse ser o status de Deus? Se pode fazê-lo e não o faz, o que dá a esse Deus o status de divino? Será do gozo de Deus soprar a vida nos pulmões do homem somente para vê-lo numa infrutífera luta contra si mesmo, apenas para agradá-Lo?
Daria Deus ao homem somente as escolhas de renegar sua natureza - e assumir o aspecto do tigre que, enjaulado, não mais urra - ou abraçá-la para ser por Ele condenado a uma danação? É congruente com a natureza de um ser que é dito ser a mais pura manifestação do Amor condenar um homem por agir da forma como Ele o fez?
Seria aprazível para uma Inteligência Suprema observar suas criaturas, as quais Ele (segundo os que interpretam Suas palavras) jura amar, revirar-se em cólicas e provações e conflitos inerentes também à natureza que lhe foi imputada, apenas para caminhar em direção a um aspecto divino que lhe é inalcançável?
Não deveria, pois, esse ser amar a sua criação da forma que Ele a fez, permitindo-os ser felizes com os poucos gozos que a Terra tem a oferecer, sendo observado apenas o respeito à felicidade dos demais ocupantes do planeta? Se for do plano de Deus que suas criaturas evoluam, por que não as fez livres do pecado e da natureza bestial? Estaria além da Sua competência criar algo que se assemelhasse a Si? Teria ciúme ou receio do homem, munido de um aspecto divino, tomar para si o caráter de criador e definidor da natureza das coisas? Considerando que Deus existe, que é divino, que nos ama e que merece ser por nós louvado, por que nos amparamos em escrituras que servem para limitar a felicidade daqueles que caminham sobre a face da Terra?
Por que não podemos entender, por exemplo, as palavras do Cristo com a mesma racionalidade que encaramos as de Kafka, Kant, Nietzsche? Por que é condenável que um homem questione sua natureza e, por consequência, seu criador se dentre os poucos dons dados à humanidade por Ele consta o da Razão?
Seria necessário para esse ser divino que seja por nós idolatrado? Sendo assim, onde está a pureza de seu Amor? Sendo assim, onde está sua eximição dos pecados que condenam em Seu nome? Sendo assim, por que seria Ele digno de adoração?
Em verdade vos digo que se há um Deus digno de ser classificado como divino ele deve entristecer-se ao ver sua criação complicar tanto os seus planos ao invés de simplesmente seguirem suas vidas sem ter suas ações balanceadas pelo fato d'Ele existir ou não. Que o tempo que perdes colocando o joelho em terra para adorá-Lo poderia ser utilizado para amar o seus próximo como a si mesmo, que o dízimo que dás poderia ser utilizado para aplacar a sede, a fome, o frio e a dor daqueles que se encontram ao seu lado.
Em verdade vos digo que se há um Deus que é puro Amor não seria de Sua natureza ser adorado e que Sua felicidade só poderia ser alcançada ao ver suas criaturas livres e prósperas - e isso não é possível tendo amarras à mente como o conceito banal de pecado.
sábado, 27 de outubro de 2012
Aquele Abraço (por trás)
O Rio pro prefeito foi oferendado...
O Rio é a terra do total descaso.
Alô, alô, eleitor, aquele abraço!
Para quem morreu esperando o SUS, aquele abraço!
Pra quem apanha da GM: aquele abraço!
Pro cracudo torturado: aquele abraço!
Pro terreno especulado: aquele abraço!
Ainda tem bicheiro em escola de samba...
E tem miliciano com voz no Plenário...
E a PM atacando estudante!
Bem vindo ao Rio de Janeiro: aquele abraço!
Sorte a tua se fores gringo: aquele abraço!
E para o índio suicída (pois estamos no Brasil...): aquele abraço!
Pro pseudonoticiário: aquele abraço!
Pro antiherói Judiciário: aquele abraço!
Pro bandido apadrinhado: aquele abraço...
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Homem Pobre
Uma vez mais a luz do sol lhe incomodou, mas dessa vez decidiu que já havia dormido o suficiente. Ergueu-se novamente e foi dar uma caminhada. Conforme olhava a cidade à sua volta foi constatando qual era o maior problema da mesma: tratava-se de um antro de pobres.
Como bom homem rico, tinha aversão a pobres. Seguia sua caminhada pelas ruas da Zona Sul, ora beirando o mar, ora não, satisfeito por aquela multidão de pobres não se dar ao trabalho de olhar para ele ou cumprimentá-lo. Uns ou outros, menos pobres, saudavam-no de forma sutil e apressada e ele, mui cortesmente, retribuía a gentileza.
Cansado, sentou-se num dos bancos à beira-mar e recolheu um jornal que ali se encontrava. Leu por horas e percebeu que ninguém viera reclamá-lo - era a edição de hoje. Lamentou pelos pobres que viviam deixando suas coisas emporcalhando a cidade e, finda a leitura do que se passava no mundo, levou o jornal à uma lixeira e seguiu sua caminhada.
Olhava com certo sadismo para os pobres que por ele passavam. Os pobres que dedicam suas vidas a ter um saldo positivo no banco ao final do mês coisa que para ele, como homem rico, não tinha a menor importância. Via todos os que passavam em carros apressados, fugindo da pobreza, em direção a trabalhos que detestavam e/ou lhes furtavam a saúde ignorando a paisagem. E lamentava por aqueles pobres, tão pobres que sequer sabiam valorizar aquilo que era gratuito.
Seguiu seu passeio socrático e a cada passo que dava via-se mais cercado de pobreza. Quando deu por si estava no Centro, o lugar mais pobre de todos. Via homens pobres que tinham de usar gravatas e ostentar paletós naquele sol infernal. Tão pobres eram que transitavam por ruas que sequer tinha a capacidade cultural de saber porque foram nomeadas daquela maneira. Deve ser por isso, constatou, que no Centro há tanta rua com nome de país...
Tão rico era que não preocupava-se em trabalhar, apenas passava o dia a observar horrorizado a pobreza que passava diante dos seus olhos. Lamentava. Quando enfim sentiu fome arranjou alguma coisa para comer e repartiu com um cão que decidiu segui-lo. Ao mesmo tempo via homens pobres que faziam questão de devorar, às vezes além do seu apetite, cada centavo que gastaram.
Em dado momento do dia encontrou outros amigos ricos. Sentaram-se à uma praça qualquer e dividiram um drink forte, cena que daria inveja à compositores da MPB. Eram, eles sim, verdadeiros cariocas, ricos e boêmios, a observar a beleza da cidade e ao mesmo tempo lamentar, embriagados, por toda aquela pobreza que a maculava.
Despediu-se dos camaradas quando a hora muito se adiantava, não que para ele isso fizesse diferença. Coincidentemente, cruzou no caminho com pobres voltando para casa, apressados como sempre. Alguns falavam ao telefone e ele pegava trechos aleatórios de desculpas de pobre para não casar com a mulher amada e não estar presente junto aos filhos: primeiro precisamos ganhar dinheiro. Será o melhor para nós. Francamente, pensava, é coisa de pobre se preocupar com dinheiro.
Retornou para seu local de descanso e ficou observando o horizonte, pensando numa solução para acabar com tanta pobreza. Não conseguia formular coisa alguma. Sabia que nos colégios muitos preocupavam-se em se preparar para uma profissão, a qual os preparariam para uma aposentaria, a qual os prepararia para a morte tranquila, sabendo que seus filhos estavam encaminhados para o mesmo ciclo e nenhuma despesa fora deixada para trás. A pobreza é praticamente uma doença genética, pensou.
Cansado de tanto andar e ainda embriagado pela cachaça que tomara recolheu-se sob seu viaduto e, fitando as estrelas que despontavam sobre o mar, dormiu o sono tranquilo dos homens ricos.
domingo, 3 de abril de 2011
Noite Passada
Calma, porra, já vou contar. Deixa eu afrouxar essa gravata e beber uma cerveja. Alguém viu o jogo? Eu não, mas foi por uma justa causa. Lembrei dos textos de Macroeconomia que eu fiquei de ler. Dane-se, a causa foi realmente muito justa.
Tá, eu conto. Pra um bando de macho num bar vocês estão bem curiosos, hein? Caras, ontem a noite eu viajei. Dormi fora, pernoitei em Pasárgada. E vou lhes contar, caras, eu realmente sou brother do rei. Cheguei lá, tinha cerveja, tinha churrasco e ainda tinha a mulher que eu queria.
Essa mesma! Dito e feito, foi fantástico. Não só pela pegação em si - essa também foi muito boa - mas também por todo o papo, todo o carinho... vejamos como a coisa se desenvolve. Por enquanto eu digo: Quanto mais a conheço, mais eu quero conhecê-la. E já faz um tempo desde que vocês não me ouvem falar isso.
Ali, o maluco tá com o Lance!, vou ver se pego emprestado. A ideia agora é manter a cabeça enfiada no trabalho, papirar até o talo e ver como será minha Terça-Feira de Cinzas.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Erros Curtos
Errei o que tinha que errar.
Errei como tinha que errar.
Errei porque tinha que errar.
Errei quando tinha que errar.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A Caixa
Pacientemente esperei por esse momento. Por mais do que um Natal, inclusive. Tive um ano de bom comportamento, vivendo a minha vida de forma justa, sem sequer imaginar o que me seria dado na Noite Feliz.
Os dias passaram normais, serenos. Em cada um deles aprendi uma coisa nova, tive a chance de ser menos menino e mais homem. Quando chegou a tão esperada noite de Natal vi que o menino havia sido substituído, não morto, pelo adulto que se formava. Ele também, no entanto, estava ansioso para saber o que o aguardava à sombra do pinheiro de plástico montando na sua sala de estar.
Mesmo com a chegada de tão esperada data, confesso, não me afobei. Tudo bem, sendo sincero, apressei um pouco os meus passos, mas vi que de nada adiantava: Aquele presente, o especial, o qual eu guardaria para sempre comigo, só me seria entregue no momento certo. As horas fluíram com a leveza de um córrego e enfim chegou o instante em que eu poderia tocá-lo e descobrir o que a vida havia me reservado.
Tomei o pacote de papel alegre e laço bem feito nas mãos. Coloquei-o no colo e pacientemente abri. Tive todo o cuidado para não rasgar o invólucro, tamanho prezar que eu tinha por aquele presente. Com gestos leves procurei as brechas que me permitiriam usufruir daquilo que me foi entregue.
Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com uma caixa. Era de madeira, em tom claro, bem trabalhada. Possuía detalhes dourados, mas era ainda assim muito simples apesar de extraordinariamente bela. Já tive essa caixa nas mãos, lembro bem, e como a vida, donatária do presente, sabia que era exatamente aquilo que eu gostaria de ter novamente? Foi preciso tempo e vivência para possuir uma vez mais o que jamais me pertenceu de fato.
Admirei aquela caixa e me perguntei o que teria dentro dela. Havia uma grande fechadura em metal frio e nenhuma chave veio junto ao pacote (acredite, eu tive o cuidado de verificar). Não tinha como saber quais segredos eram por ela guardados, mas a mesma soltava pistas de que portava tudo aquilo que eu queria. Pistas soltas na forma de um cheiro agradável, de uma melodia suave acompanhada do tilintar de zil coisas que me fascinam.
Tudo o que eu quero está lá dentro, eu sei. A caixa é paradoxal: ao mesmo tempo em que se demonstra extremamente resistente é absurdamente frágil. Um movimento mais brusco poderia quebra-la e arruinar seu conteúdo para sempre.
Tendo como lição a longa espera que eu tive para ter ao meu lado e ao alcance das minhas mãos tão misteriosa caixa, eu optei por guarda-la e esperar o momento em que a chave me será entregue. Enquanto isso, limito-me a eventualmente olhar para ela com ar de admiração, sentir o perfume exalado e imaginar o quanto será bom o dia em que a mesma for aberta para mim.
Eventualmente ouço cliques vindos da pesada fechadura fria, capaz de arrepiar-me com um simples toque. Aguardo pacientemente o instante em que um estalo final será ouvido e eu poderei não só tocar no que a caixa guarda como também depositar um pouco de mim lá dentro...
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Bons Vícios
Li na biografia de Eric Clapton a citação de que o mesmo, em dado ponto da sua vida, só não se suicidara por temer sentir falta de beber. Sim, seu vício no álcool era tamanho que foi preciso superar a vontade de morrer para atender aos seus caprichos etílicos. Desde que obtive essa informação cheguei à conclusão de que um homem deve, sim, ter seus vícios. Claro, ue um homem deve, sim, ter seus var a vontade de morrer para atender aos seus caprichos et estes não precisam (e não devem) ser destrutivos, mas tornei-me fiel seguidor da ideia de que ter algo material tão enraizado em nossas vidas é extremamente positivo. Como não sou fã de hipocrisias eu mesmo descobri meu vício: o futebol.
Sim, eu sou daqueles imbecis que gostam de assistir à série B do Campeonato Belga, que acordam de madrugada para acompanhar jogos da UEFA, que lêem a parte esportiva do jornal (que é praticamente uma Caras para homens) e discutem calorosamente a lei da vantagem, o impedimento duvidoso e tece comentários sobre a mãe do árbitro. Sinto muito, mulheres, mas sou daqueles caras os quais, aos domingos e quartas-feiras, sentam-se religiosamente em frente à TV, seja em casa ou num bar, bebe uma cerveja e berra como se pudesse ser ouvido pelo técnico ou pelos jogadores.
Todavia, não só de “ogrisse” vive o futebol. Certa feita me descrevi como um homem frio, mas que tende a emocionar-se com sutilezas da vida e o esporte mais popular do mundo é a maior fonte que já vi desses momentos sutis, comumente chamados de fair play (jogo limpo, jogo justo). Gosto de ver o ser humano conseguindo separar o adversário do inimigo, o lutar do guerrear, enfim, demonstrar humanidade ainda que no ápice da testosterona e no calor de uma partida intensa. Virtudes como o companheirismo, a tolerância e o respeito mútuo sendo exercidas ferrenhamente dentro de campo levam meus olhos às lágrimas e é justamente sobre um caso desses que passo a relatar...
Como tarado por futebol estava assistindo a uma partida que, se for analisar pela lógica, não tinha nada a ver comigo: Fluminense x Grêmio. Sou flamenguista, os jogos que me interessam de fato são os referentes à base da tabela, não ao topo. Mas como razão e paixão não se comunicam com muita facilidade eu optei por assistir ao jogo. Felizmente.
Pois bem, quem acompanha futebol sabe que o Tricolor Carioca tem um jogador (que apesar das críticas a ele considero bom) chamado Washington e que o mesmo está a nove partidas sem fazer gol, o que deve ser uma pressão fudida, haja vista que ele é atacante e é basicamente isso que um atacante faz: coloca a bola dentro da rede. Seria tipo um goleiro ficar por nove jogos sem fazer uma defesa, frustração total. Eis o cenário: segundo tempo, Washington, brasileiro, recebe a bola e chuta em direção ao gol. Por questões de centímetros a mesma iria para a linha de fundo mas Conca, argentino, corre em direção à meta adversária e finaliza. Gol do Fluminense. O público vai ao delírio, aplaudindo Conca que faz um sinal de negativo com a mão e aponta Washington, que é ovacionado pelos demais membros da equipe.
Naquele momento não haviam rivalidades. Não existia guerra de orgulho. Não existia Brasil x Argentina. Eram duas pessoas que lutavam por um objetivo comum. Assim como não havia flamenguista x tricolor, pois comemorei o gol do Fluminense, não pelo time em si, mas pelo ato do meia-atacante argentino. Fiquei pensando que era realmente uma pena Israel e Palestina não resolverem suas diferenças em campo, assim como chechenos e russos, tutsis e hutus e etc... como o mundo seria melhor se todos os problemas fossem resolvidos entre quatro linhas, dentro de noventa minutos, com clima de amistoso e tensão de final.
Ainda tenho fé de que um dia a humanidade trocará o fuzil pelas chuteiras e as trincheiras pelo gramado. Esperança de que o ser humano terá a capacidade de aplaudir um adversário e reconhecer uma vitória justa. Nesse dia provavelmente a palavra inimigo será banida do vocabulário dos homens e só será usado o termo adversário. Todavia, enquanto esse dia não chega, limito-me a celebrar os pequenos momentos de pureza que o futebol é capaz de me proporcionar. E vivo desse vício com a expectativa de passar tempo o bastante na Terra para ver meu sonho se tornar realidade.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Aposentadoria de Malandro
Buscando deixar sua mulher risonha
Não passa nem pela porta da zona
E dizem que perde grana pra otário
Malandro quando está apaixonado
Fica burro, anda desengonçado
Não bebe e nem fuma ao baixar no terreiro
Malandro encantado, moça, não tem jeito
Acha que tudo foi por Deus bem feito
Malandro pensando em um só rabo de saia
Não erra, não pondera, não comete falha
Pra sua mulher não ir embora de casa
Malandro quando está compromissado
Deixa no bar seus dados viciados
Sua navalha e seu carteado
Pra envelhecer, moça, ao teu lado
Malandro até se imagina casado
Com filho e sempre sossegado
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Tema: A Menina da Primeira Fila
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, mas só porque ela vai ser capaz de reconhecer que este é um texto construído como uma poesia em prosa. E só o faço por outros zil motivos, torpes e toscos, alguns dos quais passo a transcrever abaixo.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira por ela volta e meia aparecer com uma trança embutida no meio do seu cabelo dourado, a qual me faz imaginar durante quase um tempo inteiro de aula (aquele no qual, aparentemente sem razão, eu fiquei calado com aquele ar de quem olha mas não vê) quanto tempo demorou para deixar o cabelo daquela forma. E fico, também, pensando em formas de elogiar sem parecer que estou dando em cima, até porque para isso já bastam os demais homens do mundo, que parecem todos interessados nela, mas poucos aproveitam a oportunidade de verdadeiramente conhecê-la ou adivinhar seus traços como eu, mero observador e poeta, tento fazer agora.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, a qual guarda um lugar para a amiga, mas não faz dessa amizade uma ilha. A menina que tem sorriso fácil e uma gargalhada que só pode ter sido aprendida em Pasárgada, da tal mulher que o poeta quer na cama que ele escolher. Componho versos toscos e corridos e quase sem fôlego digo que fiquei realmente impressionado com aquela aula em especial na qual descobri que ela era uma das poucas que cantava as letras de Chico Buarque sem errar (quase) nada.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, só por achar que tem, como eu, poesia na alma e por considerar um desperdício sua falta de vontade em fazer disso sua profissão, carreira, vida. E só falo porque tenho medo de ver tantas letras bem desenhadas e cuidadosamente traçadas, em busca da exposição mais perfeita de uma ideia, sendo usadas no futuro para algo tão banal quanto a legislação vigente na Pátria em que vivo, a qual só não é mais insuportável por causa de pessoas como ela.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, porque acho que ela fica bem ali sentada e porque de vez em quando ela olha pra trás e quase observa o rapaz que senta lá pela terceira ou quarta fileiras, ora em uma, ora em outra, e já se pegou imaginando como ela ficaria com uma fita no cabelo, ou uma flor, ou mesmo uma tiara feita de prata e brilhantes, descendo de uma carruagem de abóbora e depois correndo esbaforida para, propositalmente, deixar um sapato de cristal para trás.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, do lado esquerdo da classe, e olha vividamente para o quadro branco, aprendendo tudo o que pode por achar que sua tarefa de passar no vestibular seria capaz de fazer Hércules, Aquiles e Odisseu parecerem crianças mimadas as quais não sabem o verdadeiro significado da palavra desafio.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, porque sei que ela será capaz de enxergar que o início de cada verso desse texto forma um paralelismo sintático e isso a fará feliz por perceber que todos seus esforços valerão a pena na hora de encarar aquelas malditas questões infinitas as quais tentam enfeiar essa língua tão bela que temos, cuja qual deveria servir apenas para tecer elogios e descrever paisagens bucólicas, como tentaram fazer os árcades.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira, só porque sempre que vejo alguma outra menina, a qual provavelmente não senta na primeira fileira de lugar algum, se descrever como “a maçã no topo da árvore” eu lembro dela e ponho-me a rir dos tais outros homens do mundo os quais tentam alcançá-la e mesmo que a alcancem não se mostram capazes de segurá-la com firmeza. E tal qual Newton limito-me a sentar à sombra dessa macieira chamada Acaso e sigo com meus estudos e pensamentos e filosofias e palavras tortas por linhas ainda mais tortas.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira pelo simples motivo dela ter me inspirado a escrever um texto longo e o qual eu nem vou revisar com medo de mudar alguma coisa e desconstruir todo o sentido que, querendo ou não, coloquei por trás de cada palavra. Escrevo também porque talvez um dia eu vá escrever tão bem quanto Clarice Lispector e alguma frase escrita por mim num raro surto de genialidade pode vir a ser utilizada quando ela for se descrever numa página de relacionamentos qualquer.
Escrevo para a menina que senta na primeira fileira não por querer tê-la para mim, mas por achar que ela merece ser querida, virtude tão rara de ser encontrada por aí. Porque sei que ela vai implicar com meu cigarro e a partir daí eu poderei puxar um assunto qualquer sobre trivialidades naquele espaço de tempo infinito em que um ônibus demora pra chegar...