domingo, 10 de abril de 2016

Admito

Saudades dela.

Toque, cheiro, som. Tudo.

Mas sobretudo da risada e do sorriso.

Que acalento os olhos, os ouvidos, o espírito.

Estou com saudades do tom de voz crescente,

que guarda um ânimo contido.

Estou com saudades do decote decente,

que me deixa perdido.

Estou com saudades do sabor de tabaco ardido.

Que te faz implicar pois, vejam só, se importa comigo.

Estou com saudades das conversas infindas

que vão madrugada adentro, até a lua se cansar de ouvi-las.

Estou com saudades, eu admito.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Você

Você é mais bela do que os primeiros passos de nossos filhos.

Você me dá mais alegria que o Flamengo.

De 1981.

Você me dá mais esperanças que o liberalismo.

Você é melhor do que investimentos dolarizados.

Você me gira a cabeça de forma que antes só Jack Daniel's

Você é mais gostosa que comida de vó.

Você me faz sonhar mais do que todos os brinquedos da minha infância.

Inclusive os Comandos em Ação.

Você é mais divertida que dois filhotes brincando juntos.

Você me faz tão bem quanto a Umbanda.

Você me chama mais a atenção do que uma roda de samba.

Ou de capoeira.

Você é o melhor do mundo na melhor do mundo.

Você me faz o bem que eu quero te fazer também.

terça-feira, 22 de março de 2016

Madrugada

Já foi todo o Ventura, todo o Acabou Chorare.

Toda a pequena coletânea de Sinatra e Johnny Cash.

Já foi uma garrafa e a outra está pela metade.

Já foram todas as posições confortáveis para ficar sentado no chão.

Ou tão somente para ficar.

Só resta agora o estalar do meu pescoço dolorido e o som do deslizar da sua blusa

Enquanto você se posiciona com a cabeça sobre a minha barriga.

Resta desembaraçar uma parte do seu cabelo com a ponta dos meus dedos.

E resta agora metade da metade restante da garrafa.

Resta o silêncio rompido.

Pela madeira que estala, pelo motor da geladeira. Pelas gargantas que tragam.

Resta saber quem irá se levantar para encher os copos.

E restam apenas algumas horas pro nascer do sol.

Resta saber o que resta. Lá fora e aqui dentro. E dentro dos que estão aqui dentro.

Resta metade da metade da metade restante da garrafa.

Acabamos com a garrafa antes que ela acabasse com a gente.

Levantamos num tom sério, ébrios, dormentes.

domingo, 20 de março de 2016

Oeste

Viajando para o Oeste.

Sempre para o Oeste, o Oeste distante.

Ora cowboy, ora bandeirante.

Viajando para o Oeste.


Segue seguindo, fugindo do Sol que nasce a leste. Fazendo uma noite ser eterna, trazendo frescor até mesmo ao Agreste. Fugindo do amanhã que traz boleto, prazo, telefone, planilha, peste.

Vai caminhando, o raiar do dia já vem vindo. Não deu pra fazer esse tempo ser infindo. O cowboy chegou no mar; o bandeirante, nos Andes. Encurralados no tempo, no espaço, pelos raios de sol inexoráveis que vão surgindo.

Ainda assim dá-se um jeito de seguir seguindo. O cowboy vai nadando, o bandeirante vai subindo. O sol se cansa e no oeste vai dormindo. Com sorte ele prepara um alvorecer mais lindo.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

De 27 para 17

Caro Eu-Passado,

Como vai?

Tenho algumas boas e algumas más notícias. Espero que essa missiva chegue até você em bom tempo.

Não pare de tocar bateria. É uma coisa que você gosta e no futuro te fará falta. E você ficará frustrado (depois de uma certa idade fica feio usar o termo "emputecido") quando ver que cada vez mais sabe menos. Argumenta com a sua mãe sobre os vizinhos. Caso ela se mostre inflexível, aproveite que você tem mais tempo em casa do que ela: monta e desmonta essa joça.

Falando em música, deixa de lado essa mentalidade de avestruz. Rock é bom mas, vai por mim, está longe de ser a única coisa boa. E muitas vezes não é nem a melhor coisa. Ouve samba e jazz, se permita encantar pela música clássica. Vai descobrir outros mundos, você está às vésperas de fazer 17 anos e ainda tem muito caminho a percorrer.

Ainda na pauta de coisas a não se deixar de fazer: não larga a capoeira, poucas atividades lhe serão tão apaixonantes. O seu tempo vai apertar em ocasião futura, eu sei disso, mas não ceda o tempo da roda a outras atividades banais. Com o tempo você ficará mais pesado, mais lento, com menos flexibilidade, menos fôlego. Mais velho.

Esquece essa ideia de que mulher gosta de homem forte. Você ainda não faz a menor ideia do que mulher gosta e te dou um papo: você está fazendo tudo errado. Mais vale atividade física que dê prazer para sua mente (oi, capoeira) do que supostamente daria prazer aos olhos de qualquer rabo de saia.

Já faz um ano que você fuma de vez em quando, mantenha isso sob controle. Não faça disso um hábito e não deixe algo prazeroso se tornar um vício.

Por falar em coisas prazerosas, não, cara, você não é o único punheteiro do mundo. E você não vai parar de se masturbar. Nunca. Para de paranoia e aproveita o bom funcionamento do seu pênis (essa foi uma dica que eu recebi de uma carta do Eu-Futuro).

Você acha que já amou, mas não amou. O que você tem é um tesão encubado misturado a um orgulho ferido. Confia em você (digo, em mim... na gente) por mais absurdo que essa premissa possa parecer.

Por falar em 2014, quando tiver bolão do jogo Brasil x Alemanha, aposte 7 x 1 para a Alemanha. Não compre um carro com esse dinheiro.

Carro é uma prisão, não é a coisa mais legal do mundo. É um ralo de dinheiro e grana é uma coisa que você vai aprender a valorizar mais no futuro. Não ter uma CNH não é o fim do mundo e você vai descobrir, vai por mim, que sair de ônibus muitas vezes é o melhor que você faz.

Já que eu falei em grana, seja mais grato aos seus pais por partilharem o dinheiro deles para sustentarem você e te darem agrados. Você vai aprender o valor de cada minuto de ar-condicionado e cada km rodado num carro e cada lanche no McDonald's.

Falando nisso, você já está grandinho e pode começar a comer melhor. Abobrinha, agrião, espinafre, couve, couve-flor, brócolis, tudo isso é uma delícia. Lembra do papo em relação ao gosto musical? Mesma premissa. Não se aplica a tomate, continua sendo uma merda.
 
Aprende a cozinhar o quanto antes. Vai te ajudar a aliviar o peso pra sua mãe, é uma atividade prazerosa e vai ser muito útil para fazer sua esposa feliz. Fora que é uma forma bacana de receber os amigos.

Passeie com seus cachorros. Falo seus porque o Scooby não vai durar para sempre. Dá essa alegria diária pra ele e para os cachorros que vierem no seu futuro

O vô se foi, mas seus pais e sua avó ainda estão por aí. Escrevo de um futuro um pouco mais sombrio onde não há mais conselho ou colo de vó. Aproveite todas as chances do mundo para amadurecer e se fortalecer porque isso te fará falta no futuro.

Essa carta está ficando pesada, não? Vamos falar de carreira. Mas antes quero te falar de uma coisa importante: não se furte a oportunidade de prestar o serviço militar. Você irá amargurar muito essa decisão no futuro - é, literalmente, uma chance única. Lembre-se disso ano que vem.

Ainda sobre futuro e carreira e afins: estude. Estude muito. Cada minuto que você não estudar te fará falta no futuro. Seus pais não são ricos, você não tem vocação política e nem para o crime: somente o estudo te dará segurança no futuro.

Você vai passar por uma grande decepção em termos de carreira, vai ver um sonho escapar por entre os dedos (ou talvez não, se você seguir o conselho de estudar desde já). Entenda que não é fim do mundo. E não sendo o fim, significa que novos capítulos continuarão sendo adicionados à sua vida.

Sabia que você vai ter um diploma da UFRJ? Pois é.


Sabia que você ainda tem melhores amigos? Os mesmos de hoje e mais alguns que você coletou pelo caminho. Mantenha contato com eles sempre. Esse trecho foi copiado da carta do Eu-Futuro.

Não deixe de praticar a Umbanda. Não perca a fé nos seus guias quando tudo parecer perdido (leia-se na grande decepção em termos de carreira). Você tem muita gente para ajudar e muito o que aprender sobre ser uma pessoa melhor. Seus pais fazem a parte deles, mas a Umbanda e sua esposa complementarão isso majestosamente.

Eu queria poder te falar mais algumas coisas que o meu Eu-Futuro me disse, mas ele solicitou que não o fizesse para não te enviesar. Mas as notícias são boas, então segura as pontas e faz a tua parte.

Com amor,

Eu-Presente.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Público

Não pense que penso o que está escrito.
As palavras mais verdadeiras não estarão no meu livro
Afirmo
As sinceras são ditas olhando nos olhos que amo
Chamo
Para os meus lençóis - tão nossos.


Já dizia um poeta mais sabido
Que em termos de dor o poeta é um fingido
Convencido
Pelo meu ardil com a língua que domino
A que guardo na boca, não a que vai sob seu vestido
Florido
Que usas nos dias de boreste e domingo.


O mundo não sabe o que se passa comigo
Meu coração não está em cartaz, não é exibido
Proibido
Falar o que se pensa num mundo tão concorrido
Bem sei: não sou o único a querer se deitar contigo
Sentido
Não faria dar munição ao inimigo.


No peito possuo um corredor estreito
Ao qual o acesso, te juro, é restrito
Bendito
O momento que disse: bem vindo
A todo o amor no seu ser imbuído
Digo
Que no teu formato ele foi construído.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Somos Mais Um

Saudade deixou de ser um som aos meus ouvidos e virou um sentimento - deveras egoísta, já que não é compartilhado.
A sinto sozinho, como sozinho me vejo.
Entenda, meu bem, não sei se me sinto frustrado
Talvez seja a ansiedade que conduza esse meu realejo

O amor, antes repleto de candura,
pela sua vida peleja.
Por isso entenda, minha cara, se eu me fechar em clausura;
é para fazer com que o fio de futuro que nos une no tempo não se perca.

O fardo na tua voz ao ouvir a minha própria,
as pontas de dedo que não procuram mais minha pele, meu cabelo. Eu.
Talvez eu esteja enviesado pela boa memória
que você, ao chegar em minha vida, concedeu.

Fato é que o amor impera, mas pelo visto terras perdeu
Pois, ao que tudo indica, não mais se estende no espaço, agora infinito, que há entre você e eu.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Bloquear

Eu vou te dar teu espaço
Dar motivos pra saudades
Te fazer procurar meu abraço,
Deixar de estar lá sempre que pedes.

Vou segurar essa vontade crescente de estar sempre presente
Esteja você triste, esteja você contente
Deixar de surpreender com toscos presentes
Que só tem valor a quem não os recebe eventualmente.

Vou sumir do teu mapa,
Da tua cama, da tua Lapa
Dessa rede social tão chata
Virar poeira na tua caixa de entrada.

Vou desaparecer do telefone
E não preciso dizer que não tocarei o interfone
Corta do teu caderninho o meu sobrenome
Porque agora sou apenas mais um homem.

Só não vou fazer sumir do peito a esperança
De te ver assaltada por uma feliz lembrança
E numa dessas vastas andanças
Retomar os nossos planos de termos nossa criança.

Eu sumo mas, juro, apareço
Se ver que no teu peito ainda há apreço
Se ver que esse aparente desprezo...
Não passa de um pesadelo, de um devaneio.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Casa de Bonecxs

Você me quer assim: calado e estático, boneco de trapo (ou porcelana).

Sem vida nos olhos, empoeirando em tua estante mais alta - aquela pela qual você passa os olhos sem querer quando vai consultar as horas naquele velho relógio suíço na parede.

Quando aperta a solidão, você me pega e dá corda, mas só você ri com as tuas brincadeiras. Faz-se ventríloqua, colocando palavras em minha boca. Me veste como se esse GI Joe fosse o Ken.

E não basta o Ken.

É preciso as casas (de praia e campo) do Ken, o barco do Ken, o carro esportivo do Ken. Você ridiculariza o quimono vermelho e menospreza a faixa preta.

Quando decide ser adulta, me transforma no brinquedo que te faz gozar.

Moça, com o coração dos outros não se brinca. Essa pilha que você quer colocar não me cabe e só você não percebeu que há muito estou escangalhado.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Mulher Certa

- Vou te falar...
 
O senhor colocou seu copo de bourbon sobre a bancada do bar. Devia ser umas 17h - muito cedo pra um bar da Lapa estar aberto, especialmente alguém estar tomando bourbon dentro dele. Mais ainda para estar dando conselhos.
 
- Eu sou um dos últimos pracinhas da FEB. O Brasil foi pra Segunda Guerra, sabia? Mas pouco se importam com a gente.
 
Ameaçou beber mais um gole, mas abortou o movimento quando viu que havia capturado a atenção daquele jovem.
 
- Pois é. Ninguém da nada por esse velho.
 
E bebeu. Deixou o destilado tocar sua língua e descer goela a dentro. Fez um gemido de satisfação quando sentiu o gosto forte na boca.
 
- Mas a pior coisa que pode acontecer a um homem não está num campo de batalha. Pelo menos não em um literal.
 
O jovem virou-se para o homem. Bebia cerveja. Seus trajes cheiravam a cigarro, seus olhos marejados e laureados por olheiras. Batia de leve na bancada com seu cartão - provavelmente nervoso em relação ao limite.
 
- É, garoto. Quer saber qual a pior coisa que pode acontecer a um homem?
 
Seu interlocutor o fitou fixamente, como que claramente interessado na resposta. Bebeu um gole de sua cerveja e permaneceu em silêncio esperando o velho prosseguir.
 
- Achar a mulher certa. Porque as erradas nos divertem e tão somente. Quando nos machucam as mandamos às favas e seguimos nossas vidas. Se as machucamos, paciência, elas nos enfiam o pé na bunda e seguem a vida delas. Mas a mulher certa...
 
Tomou mais um gole generoso, como que interessado em provocar seu ouvinte.
 
- A mulher certa não. A gente se prende a ela. A gente sofre, mas não larga. Esquece esse papo de que a mulher certa é a que nos faz mais feliz. Porra nenhuma, garoto. A mulher certa é aquela que queremos ver amanhã, não importa a quantos amanhãs a vemos. É aquela que a gente não consegue largar mesmo se ficar dez semanas sem trepar. É aquela que a gente vê se depilando, com mau hálito matinal, caganeira e ainda assim achamos lindas.
 
Olhou pro copo quase vazio por uns segundos, enquanto seus próprios olhos marejavam numa sincronia perfeita com os do jovem.
 
- A mulher certa faz com que sejamos idiotas. As erradas nos fazem de estúpido, as certas de idiotas. Tem diferença, vai por mim. A mulher certa, garoto, é a que faz com que queiramos ser o homem certo. Nos bota naquela rotina casa-trabalho-casa e quando percebemos lá se foram 30 anos sem que a gente se incomode.
 
Esboçou um sorriso - por certo um pensamento lhe ocorreu. Focou-se novamente no discurso e prosseguiu:
 
- Ela emprenha, engorda, fica cheia de gases e a gente quer grudar a orelha naquela barriga de balão. Ela nos inferniza com obrigações domésticas, mas nos faz reconhecer que a casa realmente fica mais agradável depois daquele esforço. Nos faz querer que nos fodamos sendo úteis pra tudo a todo tempo. Não nos dá o luxo de querermos ficar encostados.
 
Levantou e pegou a comanda do rapaz, colocou sua mão pesada sobre o ombro do mesmo e sentenciou:
 
- Para de se foder pela mulher errada, garoto. Manda ela à merda. Se ela fosse a mulher certa você não estava aqui me ouvindo, estaria fazendo de tudo pra terminar a noite na cama com ela.
 
E encaminhou-se para o caixa onde pagou a conta e sumiu em direção a vida de outro jovem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Houve Um Tempo

Não há muito houve um tempo em que meus passos eram inexoráveis, minha cabeça erguia-se orgulhosa em meio à multidão de olhares cabisbaixos que me cercavam, todo o planeta e tudo que nele habita estava à mercê da minha vontade, ao alcance das minhas mãos. Eu era uma força da natureza, imprevisível e incontestável, não havia jaula que pudesse me conter - eu inspirava curiosidade, medo e admiração.
 
Houve um tempo em que tamanho era meu amor por mim que todas as criaturas que me cercavam minguavam à sombra da minha existência. Tão alto era meu pedestal que eu não ouvia choros, cumprimentos, maldições e apelos. Era intocável, inflexível, uma estátua de mármore articulada, resistente ao tempo e ao desmoronamento das civilizações.
 
Os mais antigos hão de se lembrar que meu nome era citado com devoção e pavor. Eu era um bastião de virtudes e a palmatória da humanidade - percorria todos os cantos do mundo buscando aplacar minha infinita sede por justiça, pela minha justiça, tenha sido ela clamada por injustiçados ou não. Não havia ponto distante nem terra inalcançável, todo ser pensante sabia que estaria submisso às minhas determinações - meu desejo era soberano.
 
Crianças ensaiavam coros e cenas para louvar meus feitos. Livros eram escritos sobre as minhas conquistas. Filas formavam-se nas ruas para me receber sempre que minha personalíssima honra optava por manifestar-se em alguma coordenada do globo. Multidões aglomeravam-se buscando um olhar, uma palavra, um momento de inspiração ao meu lado. Esse era outro dom que eu tinha: inspirar, motivar. Musas cercavam meu leito para terem sobre o que inspirar seus artistas.
 
Agora meus joelhos doem. Minhas mãos doem. Minhas costas doem. Minha memória começa a perder-se no tempo, meu nome agora é sussurrado em pragas, cidadãos cospem nas estradas que meus pés tocam. Minhas estátuas foram postas abaixo, minhas pinturas queimadas, meus hinos esquecidos.
 
Não sou mais nada agora. Em breve serei somente mais um dentre tantos outros que deixaram suas impressões nesse planeta. O chão quente queima meus joelhos, essas cordas me esmagam os pulsos, minhas costas são laceradas pela chibata. Meu pescoço, porém, continua confortável enquanto espera o momento inadiável em que a guilhotina me fará uma última saudação.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ballet Cósmico

Certa feita a Terra parou (pelo menos para mim). Foi por alguns segundos apenas, provavelmente o resto da Humanidade sequer notou – com exceção dos astrônomos, que enlouqueceram. Ficou imóvel, uma rocha boiando inerte na imensidão vazia do Universo, durante aqueles breves segundos que separam uma pergunta de uma resposta.

Provavelmente esse tempo perdido, esses segundos eternos, será corrigido num próximo horário de verão. Dizem que é para economizar energia elétrica. Balela. O horário de verão foi criado justamente para dar essa margem para os corações que se inflamam a medida que a Terra, paralisada, aproxima-se do Sol.

Do momento em que a Terra parou até o dia de hoje muitos fenômenos astrofísicos ocorreram. O tempo desacelerou e acelerou diversas vezes (deixando Einstein orgulhoso). A gravidade ora mostrou-se serena como a lunar, outras implacável como a de Júpiter (incríveis 22,88 m/s²) ao passo que as decisões iam se tornando mais brandas ou severas e que as consequências me esbofeteavam ou acariciavam.

Foram dias intensos. Nas praias de Copacabana, no Observatório Nacional, no Planetário da Gávea, na NASA. Na minha cama. Nunca esteve tão vazia e tão quente ao mesmo tempo. Ela e meu espelho decidiram ter uma conversa comigo. Dizem que eu não sou mais o mesmo, que sentem falta do meu velho eu. A pergunta é: eu sinto?

Caso sinta, onde encontra-lo? Provavelmente está explorando algum outro Universo desconhecido pra mim. Enquanto me dedico ao máximo para conhecer uma só galáxia, me adaptar a novas atmosferas, ele segue livre pelo espaço. A pergunta é: vale a pena estar perdido no vazio frio e escuro só para gabar-se de não ter amarras?

Já se passou um tempo desde que a Terra parou pra mim. Hoje, pelo que vejo, ela segue seu giro inexorável, como uma bailarina indiferente à torturante ponta da sapatilha ou ao olhar crítico do respeitável público. Ela segue girando sobre risos e pratos, desesperos e esperanças, conflitos e reconciliações. 

Francamente, não espero que ela vá parar novamente, ao menos para mim (se aspiro, ou não, é outro conto). Provavelmente me juntei ao resto da Humanidade que sequer nota quando o espetáculo se encerra e que precisa ser alertado pelos companheiros de plateia para saber quando aplaudir sem saber exatamente ao que.

E essa perspectiva da Terra constantemente acelerada, gravitacional e tangencialmente, me é assustadora. Afinal de contas, o que me garante que serei acatado caso venha a dizer: pare o mundo que eu quero descer.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Conflito do Confronto

Está o inferno lá fora, minha cara. Enquanto erguemos nossas taças tem PM erguendo cassetetes e Black Blocs erguendo frágeis escudos de tapume. Alguns chamarão a confecção desses artefatos de defesa de "vandalismo".

Enquanto essa rádio nos embala suavemente, tem gente lá fora gritando palavras de ordem. Tem tiro (munição real, inclusive), tem bomba, tem grito, tem choro. Mas nada disso chegará até o nosso mundo, construído ao longo da noite, dentro do seu apartamento.

Estranho saber que ao mesmo tempo que respiramos um o perfume do outro tem pessoas sufocando em nuvens tóxicas levantadas pelo Estado com os tributos pagos por todos nós. Mas nada irá entrar pela janela, fechada para "não entrar o barulho da rua", quando na verdade é para incomodarmos menos os vizinhos.

Ao mesmo tempo em que degustamos todos os detalhes perfeitos desse jantar, temos nas ruas irmãos e irmãs que estão com o gosto do próprio sangue na boca. Talvez um ou outro se afogue.

Nesse instante em que nos enlaçamos nos braços um do outro tem combatente sendo algemado e posto em camburão, com destino sabe-se lá para onde, sob pretextos absurdos ou nulos. Contudo permanecemos aqui, presos apenas um ao outro. Voluntariamente.

Ao passo que a hora avança e vislumbramos um belíssimo futuro juntos, tiveram aqueles que se expuseram a penas de 3 a 44 anos de cadeia por todos nós - eu e você inclusive. Talvez o amanhã deles não seja tão vibrante quanto o nosso.

Todavia, essa noite, nada que ocorre além dessas paredes me importa. Essa noite, e na manhã seguinte, troco a guerra pela paz, o ódio pelo amor, o caos pela ordem, o distúrbio pela serenidade. Hoje não é meu dia no front. Hoje não tenho um inimigo.

Mas só hoje.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sobre Deus, o Pecado e o Homem.

Pergunto-vos: condenais o tigre por que ruge? Ou o rebento por que chora? Ou o vento por que gela? Ou o mar por que se agita? Ou o sol por que nasce (e morre)? Ou o coração por que explode?

Então por que condenais o homem que peca? Tal qual definimos que o som do tigre é um rugido, o do rebento é um choro, que o toque do vento é gélido, que o movimento do mar é agitado e que o ciclo do sol é uma diuturna morte-e-ressurreição, também não definimos que tal ou qual coisa é o pecado?

E vos pergunto, pois, quem nos deu autoridade sobre a Natureza para determinar a natureza das coisas, dos atos, dos pensamentos? Que força foi essa que delegou a um concílio o poder de definir quais as ações que, exercidas por qualquer homem, lhes valeria a alcunha de pecador? A inspiração divina, muitos diriam.

Pois o que determina o pecado? Será a negação da natureza humana o meio necessário para se alcançar o toque do Criador? Se crês que Deus definiu a natureza das coisas - ou delegou a homens o poder de fazê-lo de acordo com a Sua vontade - não seria Ele sádico por imputar ao homem a pré-disposição ao pecado só para vê-lo condenado por Ele e pelos seus pares que negam com afinco e demência o que é de sua natureza?

Não poderia Deus fazer o tigre mudo, o rebento silencioso, o vento quente, o mar sereno e fixar o Sol no céu? Não poderia Deus fazer com que o homem fosse isento do pecado? Se não poderia fazê-lo, o que dá a esse ser o status de Deus? Se pode fazê-lo e não o faz, o que dá a esse Deus o status de divino? 
Será do gozo de Deus soprar a vida nos pulmões do homem somente para vê-lo numa infrutífera luta contra si mesmo, apenas para agradá-Lo?

Daria Deus ao homem somente as escolhas de renegar sua natureza - e assumir o aspecto do tigre que, enjaulado, não
 mais urra - ou abraçá-la para ser por Ele condenado a uma danação? É congruente com a natureza de um ser que é dito ser a mais pura manifestação do Amor condenar um homem por agir da forma como Ele o fez?

Seria aprazível para uma Inteligência Suprema observar suas criaturas, as quais Ele (segundo os que interpretam Suas palavras) jura amar, revirar-se em cólicas e provações e conflitos inerentes também à natureza que lhe foi imputada, apenas para caminhar em direção a um aspecto divino que lhe é inalcançável?

Não deveria, pois, esse ser amar a sua criação da forma que Ele a fez, permitindo-os ser felizes com os poucos gozos que a Terra tem a oferecer, sendo observado apenas o respeito à felicidade dos demais ocupantes do planeta? Se for do plano de Deus que suas criaturas evoluam, por que não as fez livres do pecado e da natureza bestial? Estaria além da Sua competência criar algo que se assemelhasse a Si? Teria ciúme ou receio do homem, munido de um aspecto divino, tomar para si o caráter de criador e definidor da natureza das coisas? 
Considerando que Deus existe, que é divino, que nos ama e que merece ser por nós louvado, por que nos amparamos em escrituras que servem para limitar a felicidade daqueles que caminham sobre a face da Terra?

Por que não podemos entender, por exemplo, as palavras do Cristo com a mesma racionalidade que encaramos as de Kafka, Kant, Nietzsche? Por que é condenável que um homem questione sua natureza e, por consequência, seu criador se dentre os poucos dons dados à humanidade por Ele consta o da Razão?

Seria necessário para esse ser divino que seja por nós idolatrado? Sendo assim, onde está a pureza de seu Amor? Sendo assim, onde está sua eximição dos pecados que condenam em Seu nome? Sendo assim, por que seria Ele digno de adoração?


Em verdade, em verdade vos digo que se há um Deus o que Ele espera de sua criação é que seja próspera e feliz, portanto não devemos temer ao pecado, devemos recear apenas por aquilo que fazemos aos nossos irmãos e irmãs. Devemos nos ater a amar e lutar pela possibilidade de que todos possam fazê-lo, independente da natureza desse amor e de quais são as partes envolvidas nesse afeto.

Em verdade vos digo que se há um Deus digno de ser classificado como divino ele deve entristecer-se ao ver sua criação complicar tanto os seus planos ao invés de simplesmente seguirem suas vidas sem ter suas ações balanceadas pelo fato d'Ele existir ou não. Que o tempo que perdes colocando o joelho em terra para adorá-Lo poderia ser utilizado para amar o seus próximo como a si mesmo, que o dízimo que dás poderia ser utilizado para aplacar a sede, a fome, o frio e a dor daqueles que se encontram ao seu lado.

Em verdade vos digo que se há um Deus que é puro Amor não seria de Sua natureza ser adorado e que Sua felicidade só poderia ser alcançada ao ver suas criaturas livres e prósperas - e isso não é possível tendo amarras à mente como o conceito banal de pecado.





sábado, 27 de outubro de 2012

Aquele Abraço (por trás)

O Rio de Janeiro continua lento...
O Rio pro prefeito foi oferendado...
O Rio é a terra do total descaso. 
Alô, alô, eleitor, aquele abraço! 
Para quem morreu esperando o SUS, aquele abraço!


Pra quem apanha da GM: aquele abraço!
Pra quem será despejado: aquele abraço!
Pro cracudo torturado: aquele abraço!
Pro terreno especulado: aquele abraço!



Ainda tem bicheiro em escola de samba...
E tem miliciano com voz no Plenário...
E a PM atacando estudante!



Bem vindo ao Rio de Janeiro: aquele abraço!
Sorte a tua se fores gringo: aquele abraço!

E para o índio suicída (pois estamos no Brasil...): aquele abraço!
Pro pseudonoticiário: aquele abraço!
Pro antiherói Judiciário: aquele abraço!
Pro bandido apadrinhado: aquele abraço...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Homem Pobre

Era mais um dia em que ele acordava sentindo o sol da manhã lhe tocar a face junto à brisa do mar. Levantou-se, espreguiçou-se e procurou ver as horas no relógio mais próximo: cedo demais ainda. Virou para o lado e tornou a dormir.

Uma vez mais a luz do sol lhe incomodou, mas dessa vez decidiu que já havia dormido o suficiente. Ergueu-se novamente e foi dar uma caminhada. Conforme olhava a cidade à sua volta foi constatando qual era o maior problema da mesma: tratava-se de um antro de pobres.

Como bom homem rico, tinha aversão a pobres. Seguia sua caminhada pelas ruas da Zona Sul, ora beirando o mar, ora não, satisfeito por aquela multidão de pobres não se dar ao trabalho de olhar para ele ou cumprimentá-lo. Uns ou outros, menos pobres, saudavam-no de forma sutil e apressada e ele, mui cortesmente, retribuía a gentileza.

Cansado, sentou-se num dos bancos à beira-mar e recolheu um jornal que ali se encontrava. Leu por horas e percebeu que ninguém viera reclamá-lo - era a edição de hoje. Lamentou pelos pobres que viviam deixando suas coisas emporcalhando a cidade e, finda a leitura do que se passava no mundo, levou o jornal à uma lixeira e seguiu sua caminhada.

Olhava com certo sadismo para os pobres que por ele passavam. Os pobres que dedicam suas vidas a ter um saldo positivo no banco ao final do mês coisa que para ele, como homem rico, não tinha a menor importância. Via todos os que passavam em carros apressados, fugindo da pobreza, em direção a trabalhos que detestavam e/ou lhes furtavam a saúde ignorando a paisagem. E lamentava por aqueles pobres, tão pobres que sequer sabiam valorizar aquilo que era gratuito.

Seguiu seu passeio socrático e a cada passo que dava via-se mais cercado de pobreza. Quando deu por si estava no Centro, o lugar mais pobre de todos. Via homens pobres que tinham de usar gravatas e ostentar paletós naquele sol infernal. Tão pobres eram que transitavam por ruas que sequer tinha a capacidade cultural de saber porque foram nomeadas daquela maneira. Deve ser por isso, constatou, que no Centro há tanta rua com nome de país...

Tão rico era que não preocupava-se em trabalhar, apenas passava o dia a observar horrorizado a pobreza que passava diante dos seus olhos. Lamentava. Quando enfim sentiu fome arranjou alguma coisa para comer e repartiu com um cão que decidiu segui-lo. Ao mesmo tempo via homens pobres que faziam questão de devorar, às vezes além do seu apetite, cada centavo que gastaram.

Em dado momento do dia encontrou outros amigos ricos. Sentaram-se à uma praça qualquer e dividiram um drink forte, cena que daria inveja à compositores da MPB. Eram, eles sim, verdadeiros cariocas, ricos e boêmios, a observar a beleza da cidade e ao mesmo tempo lamentar, embriagados, por toda aquela pobreza que a maculava.

Despediu-se dos camaradas quando a hora muito se adiantava, não que para ele isso fizesse diferença. Coincidentemente, cruzou no caminho com pobres voltando para casa, apressados como sempre. Alguns falavam ao telefone e ele pegava trechos aleatórios de desculpas de pobre para não casar com a mulher amada e não estar presente junto aos filhos: primeiro precisamos ganhar dinheiro. Será o melhor para nós. Francamente, pensava, é coisa de pobre se preocupar com dinheiro.

Retornou para seu local de descanso e ficou observando o horizonte, pensando numa solução para acabar com tanta pobreza. Não conseguia formular coisa alguma. Sabia que nos colégios muitos preocupavam-se em se preparar para uma profissão, a qual os preparariam para uma aposentaria, a qual os prepararia para a morte tranquila, sabendo que seus filhos estavam encaminhados para o mesmo ciclo e nenhuma despesa fora deixada para trás. A pobreza é praticamente uma doença genética, pensou.

Cansado de tanto andar e ainda embriagado pela cachaça que tomara recolheu-se sob seu viaduto e, fitando as estrelas que despontavam sobre o mar, dormiu o sono tranquilo dos homens ricos.

domingo, 3 de abril de 2011

Noite Passada

Foi mal, cheguei atrasado. Garçom, vê mais um copo aqui! Caras, fiquei sabendo que ontem o Flamengo engatou, mas aconteceu uma parada muito mais interessante.

Calma, porra, já vou contar. Deixa eu afrouxar essa gravata e beber uma cerveja. Alguém viu o jogo? Eu não, mas foi por uma justa causa. Lembrei dos textos de Macroeconomia que eu fiquei de ler. Dane-se, a causa foi realmente muito justa.

Tá, eu conto. Pra um bando de macho num bar vocês estão bem curiosos, hein? Caras, ontem a noite eu viajei. Dormi fora, pernoitei em Pasárgada. E vou lhes contar, caras, eu realmente sou brother do rei. Cheguei lá, tinha cerveja, tinha churrasco e ainda tinha a mulher que eu queria.

Essa mesma! Dito e feito, foi fantástico. Não só pela pegação em si - essa também foi muito boa - mas também por todo o papo, todo o carinho... vejamos como a coisa se desenvolve. Por enquanto eu digo: Quanto mais a conheço, mais eu quero conhecê-la. E já faz um tempo desde que vocês não me ouvem falar isso.

Ali, o maluco tá com o Lance!, vou ver se pego emprestado. A ideia agora é manter a cabeça enfiada no trabalho, papirar até o talo e ver como será minha Terça-Feira de Cinzas.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Erros Curtos

Errei se tinha que errar.

Errei o que tinha que errar.

Errei como tinha que errar.

Errei porque tinha que errar.

Errei quando tinha que errar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Caixa

Pacientemente esperei por esse momento. Por mais do que um Natal, inclusive. Tive um ano de bom comportamento, vivendo a minha vida de forma justa, sem sequer imaginar o que me seria dado na Noite Feliz.

Os dias passaram normais, serenos. Em cada um deles aprendi uma coisa nova, tive a chance de ser menos menino e mais homem. Quando chegou a tão esperada noite de Natal vi que o menino havia sido substituído, não morto, pelo adulto que se formava. Ele também, no entanto, estava ansioso para saber o que o aguardava à sombra do pinheiro de plástico montando na sua sala de estar.

Mesmo com a chegada de tão esperada data, confesso, não me afobei. Tudo bem, sendo sincero, apressei um pouco os meus passos, mas vi que de nada adiantava: Aquele presente, o especial, o qual eu guardaria para sempre comigo, só me seria entregue no momento certo. As horas fluíram com a leveza de um córrego e enfim chegou o instante em que eu poderia tocá-lo e descobrir o que a vida havia me reservado.

Tomei o pacote de papel alegre e laço bem feito nas mãos. Coloquei-o no colo e pacientemente abri. Tive todo o cuidado para não rasgar o invólucro, tamanho prezar que eu tinha por aquele presente. Com gestos leves procurei as brechas que me permitiriam usufruir daquilo que me foi entregue.

Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com uma caixa. Era de madeira, em tom claro, bem trabalhada. Possuía detalhes dourados, mas era ainda assim muito simples apesar de extraordinariamente bela. Já tive essa caixa nas mãos, lembro bem, e como a vida, donatária do presente, sabia que era exatamente aquilo que eu gostaria de ter novamente? Foi preciso tempo e vivência para possuir uma vez mais o que jamais me pertenceu de fato.

Admirei aquela caixa e me perguntei o que teria dentro dela. Havia uma grande fechadura em metal frio e nenhuma chave veio junto ao pacote (acredite, eu tive o cuidado de verificar). Não tinha como saber quais segredos eram por ela guardados, mas a mesma soltava pistas de que portava tudo aquilo que eu queria. Pistas soltas na forma de um cheiro agradável, de uma melodia suave acompanhada do tilintar de zil coisas que me fascinam.

Tudo o que eu quero está lá dentro, eu sei. A caixa é paradoxal: ao mesmo tempo em que se demonstra extremamente resistente é absurdamente frágil. Um movimento mais brusco poderia quebra-la e arruinar seu conteúdo para sempre.

Tendo como lição a longa espera que eu tive para ter ao meu lado e ao alcance das minhas mãos tão misteriosa caixa, eu optei por guarda-la e esperar o momento em que a chave me será entregue. Enquanto isso, limito-me a eventualmente olhar para ela com ar de admiração, sentir o perfume exalado e imaginar o quanto será bom o dia em que a mesma for aberta para mim.

Eventualmente ouço cliques vindos da pesada fechadura fria, capaz de arrepiar-me com um simples toque. Aguardo pacientemente o instante em que um estalo final será ouvido e eu poderei não só tocar no que a caixa guarda como também depositar um pouco de mim lá dentro...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Bons Vícios

Li na biografia de Eric Clapton a citação de que o mesmo, em dado ponto da sua vida, só não se suicidara por temer sentir falta de beber. Sim, seu vício no álcool era tamanho que foi preciso superar a vontade de morrer para atender aos seus caprichos etílicos. Desde que obtive essa informação cheguei à conclusão de que um homem deve, sim, ter seus vícios. Claro, ue um homem deve, sim, ter seus var a vontade de morrer para atender aos seus caprichos et estes não precisam (e não devem) ser destrutivos, mas tornei-me fiel seguidor da ideia de que ter algo material tão enraizado em nossas vidas é extremamente positivo. Como não sou fã de hipocrisias eu mesmo descobri meu vício: o futebol.

Sim, eu sou daqueles imbecis que gostam de assistir à série B do Campeonato Belga, que acordam de madrugada para acompanhar jogos da UEFA, que lêem a parte esportiva do jornal (que é praticamente uma Caras para homens) e discutem calorosamente a lei da vantagem, o impedimento duvidoso e tece comentários sobre a mãe do árbitro. Sinto muito, mulheres, mas sou daqueles caras os quais, aos domingos e quartas-feiras, sentam-se religiosamente em frente à TV, seja em casa ou num bar, bebe uma cerveja e berra como se pudesse ser ouvido pelo técnico ou pelos jogadores.

Todavia, não só de “ogrisse” vive o futebol. Certa feita me descrevi como um homem frio, mas que tende a emocionar-se com sutilezas da vida e o esporte mais popular do mundo é a maior fonte que já vi desses momentos sutis, comumente chamados de fair play (jogo limpo, jogo justo). Gosto de ver o ser humano conseguindo separar o adversário do inimigo, o lutar do guerrear, enfim, demonstrar humanidade ainda que no ápice da testosterona e no calor de uma partida intensa. Virtudes como o companheirismo, a tolerância e o respeito mútuo sendo exercidas ferrenhamente dentro de campo levam meus olhos às lágrimas e é justamente sobre um caso desses que passo a relatar...

Como tarado por futebol estava assistindo a uma partida que, se for analisar pela lógica, não tinha nada a ver comigo: Fluminense x Grêmio. Sou flamenguista, os jogos que me interessam de fato são os referentes à base da tabela, não ao topo. Mas como razão e paixão não se comunicam com muita facilidade eu optei por assistir ao jogo. Felizmente.

Pois bem, quem acompanha futebol sabe que o Tricolor Carioca tem um jogador (que apesar das críticas a ele considero bom) chamado Washington e que o mesmo está a nove partidas sem fazer gol, o que deve ser uma pressão fudida, haja vista que ele é atacante e é basicamente isso que um atacante faz: coloca a bola dentro da rede. Seria tipo um goleiro ficar por nove jogos sem fazer uma defesa, frustração total. Eis o cenário: segundo tempo, Washington, brasileiro, recebe a bola e chuta em direção ao gol. Por questões de centímetros a mesma iria para a linha de fundo mas Conca, argentino, corre em direção à meta adversária e finaliza. Gol do Fluminense. O público vai ao delírio, aplaudindo Conca que faz um sinal de negativo com a mão e aponta Washington, que é ovacionado pelos demais membros da equipe.

Naquele momento não haviam rivalidades. Não existia guerra de orgulho. Não existia Brasil x Argentina. Eram duas pessoas que lutavam por um objetivo comum. Assim como não havia flamenguista x tricolor, pois comemorei o gol do Fluminense, não pelo time em si, mas pelo ato do meia-atacante argentino. Fiquei pensando que era realmente uma pena Israel e Palestina não resolverem suas diferenças em campo, assim como chechenos e russos, tutsis e hutus e etc... como o mundo seria melhor se todos os problemas fossem resolvidos entre quatro linhas, dentro de noventa minutos, com clima de amistoso e tensão de final.

Ainda tenho fé de que um dia a humanidade trocará o fuzil pelas chuteiras e as trincheiras pelo gramado. Esperança de que o ser humano terá a capacidade de aplaudir um adversário e reconhecer uma vitória justa. Nesse dia provavelmente a palavra inimigo será banida do vocabulário dos homens e só será usado o termo adversário. Todavia, enquanto esse dia não chega, limito-me a celebrar os pequenos momentos de pureza que o futebol é capaz de me proporcionar. E vivo desse vício com a expectativa de passar tempo o bastante na Terra para ver meu sonho se tornar realidade.